Kalu Rinpoche
Eu pertenço à escola Kagyüpa e, nessa condição, estudei e pratiquei todos
os aspectos do ensinamento do Buddha tanto no âmbito dos sutras quanto
no dos tantras. A abordagem mais característica da escola Kagyüpa é certamente
a dos "seis dharmas de Naropa" e do mahamudra, transmitidos de maneira
ininterrupta desde o Buddha Vajradhara.
Shakyamuni e Vadjradhara. Os sutras - textos que registram
o ensinamento do hinayana e do mahayana - têm sua origem no Buddha Shakyamuni,
o Buddha histórico, enquanto que os tantras - os textos que englobam os
ensinamentos do vajrayana - foram revelados pelo Buddha Vajradhara (tib.
Dorje Tch'ang), expressão do dharmakaya. Apesar disso não se deve pensar
que Shakyamuni e Vajradhara seriam duas pessoas diferentes. Eles são
duas manifestações de uma essência única, uma expondo os sutras, a outra,
aparecendo sob a forma de múltiplas divindades tântricas (Hevajra, Cakrasamvara
e muitas outras), oferecendo os tantras que se referem a elas. Quando
utilizamos o termo Kagyü, fazemos alusão a essa origem dos tantras, já
que ele significa "linhagem (tib. gyü) oriunda da Palavra (tib. ka)".
Trata-se, portanto, de uma transmissão por revelação direta de Vajradhara.
As linhagens Kagyüpa. No Tibete, as instruções do vajrayana,
que se acredita poderem levar ao completo Despertar durante o tempo da
vida presente, ou no bardo, ou no espaço de sete vidas consecutivas, foram
rapidamente difundidas por diferentes linhagens, cujas oito principais
são conhecidas sob o nome das "Oito Grandes Carruagens da Prática". Considerando
que todas essas linhagens tiveram sua origem na palavra do dharmakaya,
sob a forma de Vajradhara, ou sob uma outra forma, todas têm direito
ao epíteto "Kagyü". Assim, poderíamos falar da escola Nyingma Kagyü, de
Lamdre Kagyü entre os Sakyapas, de Ganden Kagyü entre os Guelukpas, de
Shangpa Kagyü, de Djonang Kagyü etc. Entretanto, de maneira mais restrita
e no uso corrente, quando falamos da linhagem Kagyü referimo-nos à escola
cujo fundador, no Tibete, foi Marpa, o tradutor.
Porém, no sentido estrito a linhagem Kagyü não se refere a uma única
escola, mas a um número bastante grande de subdivisões que se produziram
na história. A primeira surgiu entre os discípulos de Gampopa, os quatro
principais dentre eles criando sua própria linhagem:
- a escola Karma Kagyü, oriunda do primeiro Karmapa Tüsum Khyenpa;
- a escola Barom Kagyü, oriunda de Barom Dharma Wangtchug;
- a escola Tselpa Kagyü, oriunda de Tsöndru Dragpa;
- a escola P'agdru Kagyü, vinda de P'agmo Drupa.
Em seguida, após P'agmo Drupa, desenvolveram-se oito novas subdvisões:
- Drikung Kagyü;
- Taglung Kagyü;
- Drugpa Kagyü;
- Yelpa Kagyü;
- Yazang Kagyü;- Shugseb Kagyü;
- Marpa Kagyü;
- Tropu Kagyü.
Diferentes apresentações. Esses dois conjuntos foram em
seguida classificados como formando as "quatro grandes" e as "oito pequenas"
linhagens Kagyü. Procedendo todas de Marpa, Milarepa e Gampopa, elas têm
em comum a prática dos seis dharmas de Naropa e do mahamudra, o que não
as impede de possuir instruções ligeiramente diferentes. Por exemplo,
a tradição Karma Kagyü apresenta o mahamudra por meio da Introdução aos
Três Corpos (tib. kusum ngotrö), a escola Drikung utiliza no mesmo caso
o Pensamento Único (tib. drikung gongtchig), e a linhagem Drukpa Kagyü
o Sêxtuplo Ciclo do Igual Sabor (tib. ronyom khordrug). A maneira de
exprimir as coisas é diferente, mas o sentido permanece idêntico. A linhagem
a qual nós nos referimos mais particularmente agora é a Karma Kagyü. Ela
foi fundada pelo primeiro Karmapa, discípulo de Gampopa, que teve por
sua vez como principal discípulo Situ Drogön Retchen. Eles foram os dois
primeiros representantes das linhagens de encarnação que seriam conhecidas
como os Gorros Negros (os Karmapas) e os Gorros Vermelhos (os Situpas)
e cuja atividade, ao lado da de outros mestres, ia permitir à escola Karma
Kagyü perpetuar-se em sua integridade até nossos dias.
Linhagens próxima e distante. Como dissemos anteriormente,
a origem da linhagem remonta ao Buddha Vajradhara. Ele revelou seus ensinamentos
ao iogue indiano Tilopa, que os transmitiu a Naropa e este os confiou
em seguida a seu discípulo tibetano Marpa. Esta transmissão, que compreende
os seis dharmas de Naropa e o mahamudra, é chamada a "linhagem próxima".
Entretanto, consideramos uma outra transmissão, chamada a "linhagem distante",
que inclui mestres humanos dos quais Tilopa recebeu instruções e não se
restringe apenas à revelação que lhe foi feita por Vajradhara. No que
concerne aos seis dharmas de Naropa, esta linhagem distante engloba principalmente
quatro sistemas de prática que foram transmitidos a Tilopa oralmente,
e que ele reuniu como quatro afluentes, vindos do Norte, do Leste, do
Sul e do Oeste, encontrando-se em um único rio. Essa "linhagem distante"
compreende, entre outros, Saraha, Shawaripa, Lawapa e Sukhasiddhi. Freqüentemente,
considera-se a linhagem próxima mais importante do que a linhagem distante,
pois está mais diretamente ligada a Vajradhara. Tilopa dizia:
Não tenho guru humano,
Meu guru é Vajradhara.
Em uma curta oração que recitamos sempre no início de uma prática ou
de uma meditação, dirigimo-nos assim à linhagem próxima: Vajradhara,
Tilopa, Naropa, Marpa, Milarepa e Düsum Khyenpa, o primeiro Karmapa. No
contexto desta linhagem próxima, dois textos são considerados como a base
de referência sobre a qual se apoia a transmissão dos seis dharmas e do
mahamudra:
- Os Critérios da Palavra Autêntica (tib. ka yangdagpei tsenma) que
registram a palavra de Vajradhara e de Vajrayogini, codificando os
seis dharmas de Naropa;- O Dharma Inconcebível do Mahamudra (tib. tchaggya tchenpo sam gyi mikhyabpei
tchö), que representa o fundamento da abordagem do mahamudra.
No âmbito da linhagem distante, a transmissão do mahamudra também tem
sua origem no Buddha Vajradhara, mas antes de chegar a Marpa, o tradutor,
ela passa pelo bodhisattva Lodrö Rinchen, o mahasiddha Saraha, depois
por Nagarjuna, Shawaripa e Metripa, de quem Marpa a recebeu na Índia.
Nas Práticas Preliminares ao Mahamudra, encontramos menção dessa linhagem
distante.
Metripa, o sino e a tigela. É bem conhecido o fato de Naropa
ter sido o principal mestre de Marpa. É por isso que, quando este último
refere-se a Naropa, diz: "Naropa, meu pai, é para mim como o sol e a lua".
Entretanto, ele teve muitos outros mestres na Índia dos quais, como acabamos
de ver, Metripa, que vem em segundo logo após Naropa. Metripa morava na
grande universidade budista de Nalanda, sendo um dos seus principais eruditos.
Sua abordagem do Dharma englobava todos os níveis: ele tinha feito os
votos de monge que o levavam a observar uma conduta exterior perfeita
segundo o hinayana, os votos do bodhisattva no quadro do mahayana e os
engajamentos secretos do vajrayana. Por essa razão, ele era o que chamamos
um bhikshu dotado dos três vajras. O mahamudra era sua prática principal.
Chegou uma época em que, para ampliar sua realização interior, ele utilizou
o álcool e manteve relações com uma companheira. É claro que ele mantinha
essas práticas em segredo. Entretanto, um dos monges encarregados da disciplina
em Nalanda ficou intrigado com a cela de Metripa, de onde via sair às
vezes raios de luz. Um dia, querendo saber o que se passava, abriu de
repente a porta da cela de Metripa, mas este o tinha ouvido chegar, e
graças a seus poderes mágicos transformara sua tigela de álcool em uma
tigela de leite e sua companheira em um sino ritual. Todavia, o monge,
não encontrando nada de anormal, ficou desconfiado. Tanto que, aproveitando
uma outra ocasião, aproximou-se com bastante precaução para que Metripa
não o ouvisse e pegou-o em flagrante delito, violando as regras monásticas:
nem o álcool nem a jovem moça convinham à vida reservada de Nalanda. As
autoridades do mosteiro reuniram-se em conselho e tomaram uma pronta decisão:
Metripa seria expulso de Nalanda. Quando a sentença foi dada, Metripa
não fez nenhuma objeção. Reuniu suas coisas, pegou uma pequena esteira
que possuía e, aproximando-se do rio, colocou a esteira sobre a água,
subiu em cima e atravessou o rio como se fosse um barco! Os responsáveis
por Nalanda, diante do espetáculo, compreenderam que não se tratava de
um simples monge que tinha quebrado seus votos, como tinham pensado, mas
um mahasiddha, um ser de realização excepcional.
Atisha, Tara e o Tibete. Nessa época, um dos sacerdotes
de Nalanda era Atisha. Quando soube que Metripa, o qual juntamente com
outros ele tinha decidido excluir do mosteiro, era um mahasiddha, pensou
ter realizado um ato negativo grave por tê-lo expulsado como um mau monge
ao invés de honrá-lo por sua realização. Ele não sabia o que fazer para
se purificar desse ato, quando a divindade Tara apareceu-lhe e disse-lhe:
"Sua atitude com relação a Metripa é muito lamentável. Um dos melhores
meios para purificar-se de seu ato seria ir ao Tibete para pregar o dharma
a esse povo difícil." Acredita-se que essa intervenção de Tara foi uma
das razões decisivas da vinda de Atisha para o Tibete.
Shawaripa, os pavões e os piolhos. Sem abandonar nem o
álcool nem sua companheira, Metripa foi para uma região montanhosa para
continuar ali a sua prática. Teve, então, a visão de um yidam que lhe
revelou que o iogue Shawaripa tinha sido seu mestre durante suas vidas
passadas e que lhe era necessário de novo pedir-lhe instruções que permitiriam
que obtivesse a completa realização do mahamudra. Metripa foi, então,
ao encontro de Shawaripa, que lhe conferiu iniciações e instruções. A
conduta deste último, entretanto, era tão estranha, escapando de tal modo
às convenções, que Metripa não podia impedir-se de ficar chocado com ela.
Por exemplo, Shawaripa matava pavões e utilizava as plumas para fazer
saias com as quais se vestia, completando seu traje com todas as espécies
de fantasias. Ele também matava pequenos porcos, cortava-os em dois e
fixava as duas partes nas extremidades superior e inferior de seu arco
quando ia caçar corças e outros animais pacíficos. Quando recebia Metripa,
mantinha muitas vezes sentadas, a sua direita e a sua esquerda, duas jovens
moças que se dedicavam a catar, para em seguida comê-los, os piolhos de
sua longa cabeleira, suja e oleosa. As dúvidas que essa conduta suscitava
na mente de Metripa - particularmente porque implicava o ato de matar
- impediram durante muito tempo que ele realizasse completamente o mahamudra.
Entretanto, Metripa pôde ir além dessas reticências, de tal maneira que
a realização do mahamudra de Shawaripa pode "acender" a realização do
mahamudra na mente de Metripa, do mesmo modo como a chama de uma vela
acende uma outra vela. Assim, encontramos esses dois mestres na linhagem
distante de transmissão do mahamudra. Metripa teve numerosos discípulos
tibetanos, dos quais, como dissemos, Marpa, o tradutor, a quem transmitiu
todas as instruções do mahamudra, assim como Khyungpo Neldjor, fundador
da linhagem Shangpa Kagyü, que recebeu dele um ciclo completo de iniciações
e de instruções relativas à divindade protetora Mahakala de Seis Braços.
Resumindo, a linhagem distante, tal como a utilizamos nas "Preliminares
ao Mahamudra", passa, portanto, do Buddha Vajradhara ao bodhisattva Lodrö
Rintchen, depois ao mahasiddha Saraha, a Nagarjuna, a Shawaripa, a Metripa,
de quem Marpa a recebeu na Índia. No Tibete, ela passa de Marpa a Milarepa,
depois a Gampopa, a Düsum Khyenpa (o primeiro Karmapa), e a todos os lamas
vindos a seguir na linhagem até o Sexto Karmapa, Rangjung Rigpei Dordje.
O conjunto dessa transmissão chama-se o "Rosário de Ouro da Linhagem Kagyü",
que preservou até nossos dias a continuidade das iniciações, das leituras
escriturais, das explicações, das palavras, do sentido e da graça.
Naropa homenageia Milarepa. Marpa foi o principal discípulo
de Naropa. Ele realizou três viagens à Índia e, no total, passou dezesseis
anos e seis meses junto a Naropa. Quando veio pela terceira vez ao encontro
de seu mestre, este lhe perguntou as razões que motivavam sua visita.
Marpa respondeu que suas necessidades pessoais eram menos importantes
do que a resposta que precisava dar a seu discípulo Milarepa Thögawa ("Feliz
Notícia"). Este último, de fato, tinha tido em um sonho a visão de uma
dakini que lhe havia aconselhado receber instruções denominadas "a transmissão
direta das dakinis". Milarepa tinha pedido essas instruções a Marpa, mas
este procurou em vão em todos os textos que conhecia, e não encontrou
nenhum traço da dita transmissão. Portanto, tinha vindo procurar Naropa
para que ele lhas desse. Naropa, ouvindo suas explicações, logo disse:
Maravilha!
Das trevas profundas do setentrião,Semelhante ao sol que se levanta sobre as montanhas,
Veio aquele que chamamos de Feliz Notícia.
Diante deste santo, eu me prosterno.
Voltando-se, então, para o norte, em direção ao Tibete, ele se prosternou
três vezes. Diz-se que todas as árvores se inclinaram para o norte ao
mesmo tempo que ele e que, em nossos dias ainda, as árvores inclinam-se
nessa direção.
O erro de Marpa. Marpa tinha vários filhos, sendo que nutria
por Dharmadode, seu filho primogênito, uma afeição especial. Ele contava
fazer dele não só o herdeiro de seus bens temporais, mas o detentor de
sua linhagem espiritual. Enquanto Marpa estava junto a Naropa, este, uma
manhã muito cedo, chamou-o para que viesse depressa ver o que se passava
do lado de fora: o yidam de Marpa tinha aparecido no céu! Marpa precipitou-se
e pôde efetivamente contemplar a divindade Hevadjra acompanhada de seu
séquito, planando a sua frente no espaço.
Diante de você estão seu mestre e seu yidam, disse-lhe Naropa; diante
de qual deles você se prosterna primeiro?
"Bem, pensou Marpa, meu mestre eu vejo todos os dias, enquanto que a
aparição do yidam é uma coisa pouco comum." Assim, ele escolheu prosternar-se
diante do yidam.
O yidam é apenas a manifestação da mente do mestre, observou Naropa
e, imediatamente, Hevadjra e seu séquito fundiram-se em seu coração.
Ao escolher prosternar-se diante do yidam, continuou, você cometeu um
erro que terá conseqüências sobre a sua descendência terrestre: ela não
durará mais que uma flor no céu. Sua descendência espiritual, em contrapartida,
não será afetada: ela continuará como um grande rio. Seus sucessores serão
como os filhotes de leões: cada vez superiores aos precedentes.
Efetivamente,
Dharmadode, o filho de Marpa, morreu em um acidente. Marpa, por outro
lado, teve quatro grandes discípulos, conferindo a cada um deles uma parte
de sua herança espiritual. Milarepa, quanto a ele, recebeu todas as iniciações
e todas as instruções referentes aos seis dharmas de Naropa e ao mahamudra.
Ele mesmo as transmitiu a Gampopa e a transmissão permaneceu ininterrupta
até nossos dias.
Situ Drogön Retchen e a neve derretida. As biografias dos
primeiros mestres da linhagem - Tilopa, Naropa, Marpa, Milarepa, Gampopa
e o Primeiro Karmapa - são bastante conhecidas e talvez não seja necessário
tratarmos deles aqui. Por ser menos conhecido do que os grandes mestres
Kagyüpa, iremos falar de Situ Drogön Retchen. Ao Primeiro Karmapa foi
atribuído o nome Düsum Khyenpa para ressaltar a sua realização da natureza
última de todas as coisas, o que lhe permitia conhecer os fenômenos do
passado, do presente e do futuro. Sua reputação no Tibete era extremamente
grande. Situ Drogön Retchen, que iria tornar-se seu principal discípulo,
tinha, por sua vez, adquirido uma capacidade notável na prática de tumo,
um dos seis dharmas de Naropa, durante a qual é produzido um grande calor
físico. Em todas as estações, incluindo o inverno, ele trajava apenas
um tecido de algodão branco, o que lhe tinha valido o nome de "Retchen",
o "Grande (iogue) com Tecido de Algodão". Ainda que tivesse atingido um
certo grau de realização, ele não tinha se livrado de todo orgulho. Ele
sentia-se vaidoso, principalmente com seus conhecimentos e suas experiências
interiores, em particular dos resultados que obtinha com a prática de
tumo. A reputação de Düsum Khyenpa, entretanto, ofuscava-lhe e, para provar
sua capacidade - quem sabe até para provar sua superioridade - decidiu
disputar com ele, propondo-lhe um concurso. Düsum Khyenpa residia, então,
em uma gruta cavada nas neves eternas de uma alta montanha. Evidentemente,
não dispunha de uma boa alimentação nem de nenhum conforto. Quando Situ
Drogön Retchen se apresentou, ele lhe disse:
- Você vem de longe e teve muito trabalho para chegar até aqui. Vou
preparar uma boa sopa para nós.
Colocou em uma vasilha carne e diversos ingredientes que tinha às mãos,
depois, para misturar tudo, pegou um velho osso de dedo humano que estava
por ali e disse maliciosamente:
- Normalmente, eu misturo apenas uma vez; mas já que hoje tenho um
hóspede notável, vindo de longe, devo misturar três vezes.
Situ Drogön Retchen superando o nojo, comeu a sopa e expôs a razão de
sua visita: queria fazer um concurso de tumo com Düsum Khyenpa para saber
qual dos dois tinha o maior controle dos canais e dos ventos sutis.
- Por que não? respondeu o Primeiro Karmapa. Entretanto, eu estou ficando
velho e preferiria que você disputasse com um dos meus discípulos, Batsa
Tadelwa, que pratica em uma gruta próxima daqui.
Situ Drogön Retchen partiu, então, em visita a Batsa Tadelwa. Entretanto,
quando chegou à gruta que o Karmapa tinha lhe indicado, não encontrou
ninguém. Ele voltou para contar a Düsum Khyenpa.
- Sim, estou certo que ele está lá, respondeu Düsum Khyenpa. Volte
lá.
O visitante foi de novo até a gruta. E viu apenas um tigre. Enviado novamente
até lá por Karmapa, viu, na terceira vez, uma fogueira que ardia no meio
da gruta. Na quarta vez, viu uma grande poça de água. Achando estranhas
essas aparições sucessivas, Situ Drogön Retchen atirou negligentemente
uma pedra na poça. Embora seu hóspede nunca encontrasse a pessoa que procurava,
Düsum Khyenpa assegurava-lhe que seu discípulo não poderia estar em outro
lugar, já que ele mesmo o tinha conduzido a meditar nessa gruta. A quinta
visita teve sucesso: o iogue estava de fato lá, em postura de meditação.
Detalhe curioso: a pedra atirada pelo visitante estava sobre a dobra de
sua roupa. Situ Drogön Retchen expôs-lhe as razões de sua vinda: ele desejava
comparar suas capacidades em tumo com as de Düsum Khyenpa e este, julgando-se
muito velho, propôs-lhe disputar com ele, Batsa Tadelwa. Posto que essa
era a vontade de seu mestre, este último aceitou. O concurso aconteceria
à noite.
- Todavia, acrescentou ele, eu sempre permaneci aqui. Estou habituado
ao clima, o que poderia me dar uma certa vantagem da qual não quero
me aproveitar. Para o concurso, vou meditar num local um pouco mais
alto na montanha, que um vento glacial torna mais frio. Você, você ficará
aqui, perto da gruta.
Cada um tomou, então, seu lugar e começaram a praticar tumo. Durante
a noite, Situ Drogön Retchen liberou calor suficiente para derreter a
neve a sua volta, em um raio de duzentos ou trezentos metros. Ainda que
a neve tenha se transformado em água, esta continuava fria e o iogue sofria
os efeitos da noite glacial. Quanto a Batsa Tadelwa, mais alto na montanha,
não somente tinha derretido a neve em um raio equivalente ao vôo de uma
flecha, como banhava-se em um lago bem quente, comprazendo-se em fazer
as ondas baterem sobre seu corpo. Quando chegou a aurora, o Karmapa veio
voando pelos ares ver quem ganhara. Quando constatou a situação, pediu
a Batsa Tadelwa para ter um pouco de compaixão e deixar que a água quente
corresse para aquecer seu concorrente. Esse revés permitiu que Situ Drogön
Retchen perdesse seu orgulho. "Se essas são as capacidades do discípulo,
pensou, quais não seriam as do mestre!" A partir de então, ele considerou
o Karmapa o seu lama-raiz.
A festa de tummo. A prática do mahamudra e dos seis dharmas
de Naropa perpetuou-se intacta de Milarepa até nossos dias, principalmente
no Kham, no âmbito dos retiros de três anos e três meses. Durante o segundo
e o terceiro ano desses retiros, no aniversário da partida de Milarepa
deste mundo, tradicionalmente fixada no décimo-quarto dia do primeiro
mês tibetano, os reclusos decoravam de modo especial o centro de retiro
e, vestidos com um simples tecido de algodão, reuniam-se para passar a
noite. Inicialmente, exercitavam-se na produção de calor de tummo, depois
entoavam ritualmente os cantos de realização compostos por Milarepa e
pelos grandes mestres Kagyüpas do passado. Na aurora, praticavam os exercícios
físicos relacionados aos seis dharmas de Naropa. No final do retiro, sempre
fixado em pleno inverno, os meditadores saíam em procissão, vestindo o
mesmo tecido de algodão branco, e faziam a volta do mosteiro. Apesar do
frio intenso, graças ao poder adquirido pela prática de tummo, eles produziam
um calor suficiente para que se sentissem perfeitamente bem, calor cujos
efeitos podiam ser vistos pelo leve vapor tremulando em volta de seus
corpos. Os tibetanos das redondezas vinham, então, em grande número, assistir
ao espetáculo e, em homenagem à realização dos reclusos, prosternavam-se
a sua passagem. Quando o Décimo Sexto Karmapa, exilado, estabeleceu de novo um
centro de retiro contíguo a seu mosteiro de Rumtek, na Índia, ele quis
que as tradições do Tibete fossem retomadas integralmente e confiou a
missão de dirigir o centro a Bokar Tulku Rinpotche. Quando o primeiro
retiro terminou em Rumtek, os reclusos, com Bokar Rinpotche na frente,
saíram, então, como no Tibete, vestidos com um tecido de algodão branco
e praticando tummo. Os espectadores ficaram muito impressionados.